Porque estamos tão estressados e temos dificuldade em praticar self-care?

Atualizado: Jul 8




Faz alguns anos que venho me dedicando a estudar temas ligados a autoconhecimento tais como coaching, felicidade, stress, neurociência, além de praticar religiosamente Mindfulness e Yoga.

Algumas pessoas me pedem dicas em como “aliviar” o stress ou dicas para cuidarem mais de si mesmas.


A Gallup considera que 2020 foi oficialmente o ano mais estressante da história recente, com um recorde de 40% dos adultos em todo o mundo dizendo que experimentaram muito stress no dia anterior. Esse salto de cinco pontos percentuais de 35% em relação a 2019 representa quase 190 milhões de pessoas a mais em todo o mundo que experimentaram muito mais stress.


O fato é que se fosse possível resolver temas tão complexos como saúde mental, melhoria do bem-estar e stress com apenas algumas dicas e exercícios, as pessoas já teriam conseguido se resolver sozinhas e os números não estariam aumentando.


Basta dar um google search e encontramos centenas de artigos sobre como lidar com stress e muitas dicas relacionadas a todos estes temas. Acho ótimo, existe muito artigo interessante, ferramentas e milhões de pessoas compartilhando meditações, yoga, muita coisa boa, inclusive gratuita.


A verdade é que insights, resultados e real transformação podem ser obtidos através de um trabalho com um terapeuta ou mentor qualificado, mas não podem ser experimentados num simples google search ou numa conversa de 15 minutos. A mudança real acontece quando somos capazes de formar novos hábitos, quando conseguimos mudar a forma como enxergamos certas situações.


“Stress não é nosso inimigo, são as nossas reações a ele”



Antes de mais nada, gostaria de dizer que um pouco de stress é necessário ao nosso crescimento e desenvolvimento pessoal pois nos tira da nossa zona de conforto e nos força a encontrar soluções. Porém, quando o stress é experimentado de forma contínua e em exagero, sem tempo de recuperação, é muito danoso para a nossa saúde e para o nosso sentimento de felicidade e bem-estar de forma geral.



Photo by energepic.com from Pexels


Stress pode ser sentido de várias formas. Não se trata apenas de sobrecarga de trabalho.


Stress pode ser sentido caso você não encontre um significado para a sua vida, caso você sinta que seus valores não estejam sendo respeitados, quando você não tem clareza sobre uma decisão ou para onde ir, caso esteja doente; caso tenha excessos de pensamentos ou sofra de insônia, quando você não consegue lidar com emoções, caso você esteja enfrentando brigas em relacionamentos ou amizades e por aí vai.


Todo mundo experimenta stress num maior ou menor nível diariamente.


O que está por detrás do stress são crenças que foram criadas por anos, muitas vezes inconscientes pela forma como vivemos em nossa sociedade e em nossa cultura. Por este motivo, não é tão simples transformar um padrão adquirido em anos, num padrão mais saudável.


Para se tratar o stress é necessário examinar o nosso “Mindset”, a forma como encaramos os nossos pensamentos, a forma como lidamos com as nossas emoções, entender os influenciadores que causam o stress e finalmente como agimos e cuidamos de nós mesmos.


O foco do artigo de hoje é sobre o cuidado conosco mesmo, ou seja, self-care.



Existe um desentendimento a respeito do conceito de self-care e de sua priorização.


Então, vamos começar explicando o que é self-care:


  • É uma forma de ser que faz com que você se envolva em atividades que te nutrem em todo o seu aspecto; quando você se sente “inteiro”.

  • É pessoal.

  • É necessário autoconhecimento para entender quando você está se sentindo fora de balanço e a sabedoria em utilizar ferramentas que te tragam esse balanço de volta.



Ou seja, self-care é muito mais do que uma alimentação saudável, um dia no spa, e auto-indulgências!


E porque é tão complicado as pessoas saírem do seu padrão de stress e praticar self-care?


Quando se fala em auto-cuidado, normalmente as pessoas caem em três tipos de pensamento automático, enxergando através das seguintes lentes:





1. Através da lente de eficiência e produtividade


Nós vivemos num mundo que nos cobra produtividade o tempo todo, o pensamento da falta de tempo não nos permite efetivamente dedicar tempo para a gente mesmo, de se cuidar; pois se fizermos isso, deixaremos de ser produtivos. E se pararmos de ser produtivos, não demonstraremos o nosso valor.


Muitas pessoas associam o seu valor pessoal com o seu valor no trabalho ou na eficiência do cumprimento de metas e objetivos. Então, mesmo de forma inconsciente, os pensamentos que estão por detrás são do tipo:

“Eu não posso deixar de ser produtivo, pois senão deixo de ter valor.”

“Eu irei valer menos se parar de ser produtivo”.


2. Através das lentes de auto sacrifício


Nós também fomos condicionados desde pequenos que devemos fazer certas coisas, mesmo que não sejam da nossa vontade ou prioridade, mas para demonstrarmos que somos “boas pessoas”. Se não nos sacrificarmos, não seremos vistos como uma pessoa boa, seremos vistos como egoístas.


Em algum momento de nossas vidas, muitos de nós deve ter passado por esses ensinamentos, em casa, ou na escola ou mesmo no trabalho.


O mais comum é em casa, pense bem: quanto os nossos pais não se sacrificaram pela gente? Trabalhando de forma incessante para nos dar o melhor possível, muitas vezes deixando de fazer o que eles mesmos sonhavam para tomar conta da gente. Então, na nossa mente, novamente de forma inconsciente, construímos o pensamento de que auto sacrifício é igual a amor.



3. Através da lente da culpa


É muito importante cultivarmos o amor-próprio e generosidade conosco mesmo.

Quantos de nós temos uma ideia mal concebida de que cuidar de nós mesmos é de certa forma um ato egoísta?


Por razões culturais ou filosóficas, amor-próprio muitas vezes foi visto como uma coisa de gente egoísta e o cuidar do próximo era visto como algo altruísta. Egoísmo foi considerado como algo imoral por diversos pensadores ao longo dos séculos.


Como ser egoísta é imoral e ruim, muitas pessoas inferem que self-care tem uma conotação negativa, mesmo que seja de forma inconsciente. Desta forma, a interpretação comum efetuada é: cuidar de mim é ser egoísta e cuidar do outro é ser altruísta.


Nós temos a tendência de fazer essa correlação pois fomos criados num mundo dualístico, onde as coisas são vistas em extremos: bom ou mal; branco ou preto; como se não existisse uma infinidade de possibilidades entre os extremos. Ou seja, através destas ideias, os conceitos de “self-care” (amor próprio) e cuidar do próximo foram vistos como opostos irreconciliáveis.


Resumindo, o pensamento que a pessoa experimenta é do tipo:

“Eu sou egoísta se eu me colocar como prioridade; devo cuidar do próximo primeiro.”


Enfim, a pessoa acaba se sentindo culpada por estar cuidando de si mesma.



Embora qualquer foco no tópico “self-care” e “well-being” seja relevante e um passo na direção correta, muitas propostas ficam em um nível mais superficial.


Tenho certeza de que o que causa stress e inquietação nas pessoas, é muito mais profundo do que alimentação mais saudável, lanchinhos, tratamentos cosméticos, massagem, horário flexível, falta de férias. Claro, que tudo isso tem muito valor. Entretanto, esse modelo “mainstream” acaba sendo falho porque somos confrontados com um “eu” esgotado, que muitas vezes se sente vazio, e que sempre vai precisar de outro lanche, outra massagem, ou mais férias.


Os números falam por si só. As pessoas estão cada vez mais estressadas.

Mental health é “o” tópico.


Por isto, acredito que é mais poderoso e sustentável para aprender a gerenciar o stress, quando olhamos para as crenças que estão impulsionando nossos pensamentos, emoções e comportamentos estressantes. Consciente e subconscientemente.


Temos de aprender a nos ver com mais gentileza e desenvolver uma nova forma de ser, onde o nosso valor pessoal não está condicionado às nossas agendas atarefadas e milhões de entregas.


Temos de aprender que o fato de querermos cuidar de nós mesmos não é um ato egoísta e portanto, não deveríamos sentir culpa. Aliás, a única forma de podermos contribuir com o próximo e com o mundo, é cuidando de nós mesmos em primeiro lugar.


Self-care é pré-requisito para se amar ao próximo.


Somente quando amamos a nós mesmos é que somos capazes de desenvolver real compaixão com as outras pessoas. Para sermos realmente felizes é preciso desenvolver essa qualidade.


Quando você chega na sua “casa”, quando você sabe quem você é, um amor surge em seu ser.
Então a fragrância se espalha e você pode dá-la aos outros. Como você pode dar algo que você não tem? Para dar, o primeiro requisito básico é ter.
Osho


Self-care é a base na qual construímos nossa vida.


Tudo o que tocamos, fazemos e compartilhamos depende e é moldado pelo quão “completos” nos sentimos. Com este sentimento dentro de nós, transferimos, de forma consciente ou inconsciente, para todo o resto que fazemos.


Isso significa que, se estamos vivendo, criando e servindo a partir de um lugar de esgotamento ou de falta, essa energia pode ser “sentida” pelas demais pessoas. Mas quando cuidamos do nosso corpo, mente e espírito – somos energizados, inspirados e então, podemos viver e servir de um outro lugar, um lugar que irradia de dentro, que inspira.


Qual é a solução?


Ao invés de esperar fazermos tudo primeiro para depois "cuidarmos de nós mesmos", temos de permear o “self-care” em tudo o que fazemos.


A mudança de mentalidade é em enxergar o “self-care” em como fazemos tudo.


Trata-se do como:

priorizamos nosso dia, gastamos nosso tempo, gastamos nosso dinheiro, alimentamos nosso corpo, nos envolvemos com o trabalho, nos conectamos com os outros, nos conectamos com a natureza, definimos nossos limites, falamos com nós mesmos, interpretamos nossos pensamentos, processamos nossos sentimentos, expressamos nossas verdades, etc.


Self-care é a base da nossa liderança


Para sermos líderes de nossas vidas de verdade e para que possamos prosperar e crescer, precisamos ser mestres em cuidar das nossas mentes, corpo e do espírito -independentemente do que está acontecendo em nosso mundo exterior.



Self-care não é o que fazemos após tudo o que precisamos fazer;

Self-care é como nós fazemos tudo.



Carla Camargo trabalha com desenvolvimento humano, faz mentoria em transições de carreira e bem-estar; ajudando as pessoas a reduzirem o ruído interno, tendo mais clareza e melhorando a performance através da identificação das causas raízes associadas ao stress e adoção de novos hábitos.

www.cyounow.com



1

48 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo